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Gastos de viagem do 'Bolsonaro da África' ao Brasil chegam a R$ 300 mil

Presidente da Guiné-Bissau veio ao Brasil no que é considerado por especialistas como 'turismo ideológico'

Folhapress

Publicado em 23/09/2021 às 09:30

Atualizado em 23/09/2021 às 09:55

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Embaló foi chamado de 'Bolsonaro da África' pelo próprio presidente do Brasil / Divulgação/ Agência Brasil

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A viagem ao Brasil do presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, custou ao governo federal ao menos R$ 300 mil, entre desembolsos com hospedagem, veículos oficiais e eventos.

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A despesa total, porém, foi ainda maior. Isso porque os custos do envio de avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para buscar o líder estrangeiro e levá-lo de volta ao país africano não foram contabilizados na planilha enviada pelo Itamaraty, após pedido feito com base na LAI (Lei de Acesso à Informação).

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Os voos da FAB com Embaló entre Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro tampouco foram incluídos na tabela de despesas. Também questionado via LAI, o Ministério da Defesa afirmou que custos que envolvem aviões militares são sigilosos.

Embaló esteve no Brasil na semana de 24 de agosto. Ele foi recebido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) –de quem é admirador– e participou como convidado de honra das celebrações pelo Dia do Soldado.

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Em 26 de agosto, viajou a São Paulo para visitar o Museu da Língua Portuguesa. No dia seguinte, esteve no Rio de Janeiro para conhecer o Comando de Operações Navais da Marinha.

Embaló já foi chamado pelo líder brasileiro de "Bolsonaro da África" e é criticado por promover uma guinada autoritária na Guiné-Bissau. Opositores o acusam de tentar implementar uma ditadura no país.

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A planilha de custos enviada pelo Ministério das Relações Exteriores com a viagem de Embaló soma R$ 294,2 mil. Desse montante, foram gastos R$ 177,9 mil com eventos e R$ 99,8 mil com hospedagem.

A disponibilização de veículos para o africano –o que inclui o aluguel de carros, de acordo com diplomatas– saiu por R$ 16,4 mil.

As despesas abarcam os gastos totais do ministério com a comitiva estrangeira e incluem a estrutura necessária tanto para receber Embaló e seus assessores como para o trabalho de integrantes do governo brasileiro.

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Na resposta enviada ao pedido de acesso à informação feito pelo jornal Folha de S.Paulo, o Itamaraty destacou que "cortesias oferecidas por governo local a chefe de Estado e chanceler estrangeiro em visita oficial constituem prática de uso corrente observada pela comunidade internacional".

"Cumpre ressaltar que, nas viagens ao exterior dos senhores presidente da República e ministro de Estado [das Relações Exteriores], os países anfitriões costumam estender as mesmas cortesias", completa a nota.

A chancelaria encaminhou os gastos realizados com duas visitas oficiais realizadas em 2015, a título de comparação. Naquele ano, o Itamaraty desembolsou R$ 153 mil e R$ 171 mil na recepção dos líderes de China e Coreia do Sul, respectivamente.

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Embora arcar com esses custos seja comum na diplomacia, a viagem de Embaló ao Brasil chamou a atenção pela falta de anúncios e por uma pauta bilateral de pouca substância.

Em 2020, o Brasil exportou cerca de US$ 3,4 milhões para a Guiné-Bissau e importou US$ 606 mil do país africano. Diplomatas avaliaram internamente que o encontro foi motivado principalmente pela proximidade ideológica entre os dois líderes.

Alexandre dos Santos, professor de África no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), tem opinião semelhante. "Embaló veio fazer turismo ideológico no Brasil. Bolsonaro está isolado e a mesma coisa ocorre com Embaló: ninguém quer uma proximidade com ele na África Ocidental", afirma.

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A declaração oficial feita por Bolsonaro e Embaló no Palácio do Planalto, em 24 de agosto, durou aproximadamente cinco minutos.

Além de chamar Embaló de irmão, Bolsonaro disse que a Guiné-Bissau é a "porta de entrada para a África Ocidental". "Eu considero um país irmão, nós temos muito a colaborar com a Guiné-Bissau e eles também, no tocante a segurança do Atlântico Sul", disse Bolsonaro.

Embaló, por sua vez, destacou que o Brasil "tem tudo que a Guiné-Bissau mais precisa" e citou a modernização da agricultura e a área da saúde. "Temos passado por crises cíclicas, e o Brasil nunca virou as costas ao povo irmão da Guiné-Bissau."

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O comunicado que o Itamaraty soltou sobre a reunião entre os dois líderes tem quatro parágrafos.  A nota informou que Bolsonaro e Embaló passaram em revista a agenda bilateral, com vistas a aprofundar o diálogo político e a cooperação técnica entre os dois países. "Atualmente, encontram-se em execução projetos nas áreas de agricultura; saúde; capacitação de diplomatas, militares e forças de segurança; alimentação escolar; ensino superior; e gestão de recursos hídricos", afirmou a chancelaria.

Mesmo os poucos compromissos oficiais de Embaló no Brasil sofreram desfalques. Ele tentou se encontrar com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). No final, foi recebido pelo vice-presidente do Senado, Veneziano Vital do Rego (MDB-PB).

Em São Paulo, chegou a ser agendada um encontro com o governador João Doria (PSDB), mas o tucano cancelou a reunião.

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Questionado, o Itamaraty informou que Embaló teve ainda outros dois compromissos no Brasil. Em São Paulo, ele manteve "agenda de natureza privada com cerca de 150 membros da comunidade bissau-guineense". E, no Rio, fez uma visita a uma clínica que presta serviços de hemodiálise para o SUS (Sistema Único de Saúde) junto ao ministro Marcelo Queiroga. 

 

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