Cotidiano

Ruínas de 1836 servem de abrigo para usuários de drogas, em Santos

Na Rua São Francisco está a escadaria que dava acesso à Igreja São Francisco de Paula e antigo prédio da Santa Casa de Misericórdia

Pedro Henrique Fonseca

Publicado em 01/09/2013 às 10:01

Atualizado em 16/01/2019 às 19:26

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As ruínas são construções que nos remetem ao ano de 1836 / Jonas Morais/Arquivo DL

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É certo que quase todo o Centro de Santos é cercado de muita história. É certo também que a preservação dos patrimônios históricos nunca foi o forte da Cidade.

Nesse contexto, estão incluídas as ruínas da escadaria que dava acesso à Igreja São Francisco de Paula e ao terceiro prédio da Santa Casa de Misericórdia de Santos, construções que nos remetem ao século XIX, ao lado do Túnel Rubens Ferreira Martins.

Aparentemente esquecidas pelo Poder Público, elas estão ocupadas por usuários de drogas, que utilizam o local como abrigo e para o consumo de entorpecentes. No ano de 1836, a terceira sede da Santa Casa de Santos foi construída no lugar de uma antiga construção inacabada que existia ao lado da Igreja São Francisco de Paula, que dá nome à rua no Centro da Cidade. A primeira Santa Casa foi construída em 1542.

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Já a segunda foi construída em 1655, na Praça Mauá, onde hoje se encontra a Prefeitura de Santos. No complexo, que era localizado onde atualmente está o Elevado Aristides Bastos Machado, no sopé do Monte Serrat, havia o hospital, a igreja, uma farmácia, a maternidade, o necrotério e o Pavilhão Dr. Soter de Araújo.

A Santa Casa funcionou até 1945, quando um deslizamento de terra em 1928 no Monte Serrat atingiu parte do complexo, fazendo com que o hospital fosse reconstruído no bairro Jabaquara, onde permanece até hoje. Após a desativação, as instalações ainda foram ocupadas por flagelados até a demolição de todo o complexo.

Passados 68 anos da desativação do hospital, que veio a ser demolido para a construção do elevado Aristides Bastos Machado, por volta de Pedro Henrique Fonseca 1950, hoje o cenário no local é de abandono e esquecimento. Porém, há quem acredite que a escadaria possa ser restaurada para se tornar um ponto turístico.

É o caso do historiador Francisco Carballa, que nos anos 80 esteve no local e chegou a subir a antiga escadaria. Carballa afirma que até a década de 60 ainda era possível ver a fachada da Igreja São Francisco de Paula e da Santa Casa de Misericórdia. “Aquela escadaria e um pouco do muro de arrimo, que seria a frente do hospital, foram as únicas coisas que sobraram da frente da Santa Casa.

Elas davam acesso tanto ao prédio da provedoria quanto às enfermarias. No começo dos anos 60, quem andasse por lá ainda via a fachada da igreja, já em ruínas, restos do hospital e de tudo o que havia sido demolido”.

Sítio arqueológico

Segundo Francisco Carballa, o local onde estão as ruínas da escadaria da Santa Casa é um sítio arqueológico, pois em dias de muita chuva, ossos do cemitério da Igreja São Francisco de Paula afloram do chão. “Se escavar ali, além dos restos de construção que aparecem em dias de muita chuva, aparecem ossos muito porosos, que dá para perceber que são humanos”.

Os ossos, segundo o historiador, são de pessoas que foram condenadas à morte através de enforcamento. Na porta da antiga igreja, havia o ‘Túmulo dos Enforcados’, pois naquela época, quem enterrava os que eram condenados era a Misericórdia, a Santa Casa.

Ele explica também que havia um ritual na época, chamado de ‘Procissão dos Ossos’, realizado pela Irmandade da Misericórdia, destinado aos condenados à morte, que não podiam ser sepultados. “Os membros da Irmandade pegavam essa pessoas, geralmente um dia antes do Dia de Finados e andavam encapuzados, com as ossadas expostas pelas ruas da Cidade. Quando chegavam a Misericórdia, velavam e enterravam os restos mortais ali. Toda igreja da Misericórdia tinha o Túmulo dos Enforcados e a Procissão dos Ossos, que acabou quando foi proibida a pena de morte”.

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Antigo cartão postal mostra a fachada da Santa Casa e a escadaria que restou na Rua São Francisco (Foto: Reprodução)

Recuperação do patrimônio

Na visão do historiador, a antiga escadaria que dava acesso à Igreja São Francisco de Paula e à Santa Casa, deveria ser restaurada, para que sirva de ponto turístico. “Eu tenho a preocupação de recuperar aquela escadaria como ela era.

Refazer o que está faltando, como o balaústre de alvenaria, o corrimão da escada, colocar o gradil de ferro, os postes neoclássicos e talvez dentro, no nicho de Santa Isabel, fazer um azulejamento (sic) para mostrar como era o local”.

Para Carballa, além de ponto turístico, o local também poderia abrigar uma passarela, que auxiliaria os pedestres na travessia das duas pistas do elevado Aristides Bastos Machado para o Morro Boa Vista. “As pessoas usam aquele local para atravessar de um lado para outro, por isso deveria ser feita uma passarela ali.

Não adianta ter somente uma ruína, no meu modo de ver, ela tem que ter uma utilidade”, explica. Há cerca de dois anos, Carballa enviou um pedido de restauração do local à Câmara de Santos, porém, ele afirma que o mesmo foi recusado, após interferência direta de um antigo historiador da Cidade.

Visitas monitoradas

O historiador, que atualmente trabalha na Rede Estadual de Ensino, lamenta não poder realizar visitas monitoradas com seus alunos devido à ocupação por parte de usuários de drogas, que transformaram o local em uma espécie de cracolândia. “O lugar infelizmente é impróprio por causa dos usuários de drogas.

Eles detonaram a capela que havia ali, por exemplo. Muitas escolas levam os alunos até ao local apenas para observar de longe, pois eles têm medo dos usuários”, explica.

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Ruínas desaparecendo

Por fim, Carballa explica que as intempéries do tempo estão fazendo com que as ruínas da escadaria que davam acesso à Santa Casa de Misericórdia e à Igreja São Francisco de Paula, se deteriorem cada vez mais, e aproveita para fazer um alerta. “Aquilo está desaparecendo cada vez mais, pois a chuva esta carcomendo o que sobrou e aquilo está se perdendo.

A terceira sede da Santa Casa é uma coisa histórica. Ali passaram doentes, ali passaram mortos carregados em caixões. Mas como eu disse, o local ainda tem salvação”.

Historiador Francisco Carballa acredita que o local deve ser restaurado (Foto: Jonas de Morais/DL)

Testemunha viva

Clóvis Benedito de Almeida, atualmente com 85 anos, é uma das poucas testemunhas vivas do funcionamento da Santa Casa, e recorda- se do atendimento e de detalhes do hospital. “Eu me lembro que o local era muito limpo e as pessoas eram muito bem atendidas.

A construção era muito bem feita, o hospital era todo ladrilhado. A cozinha era grande e limpa”. Com um tom de tristeza na voz, Clóvis lamenta a demolição do complexo. “Foi uma pena demolirem a Santa Casa, não havia necessidade de fazer aquilo, mesmo com a construção do túnel.

Aquilo foi arrasado. Muitas pessoas vindas de outros lugares passaram a visitar o prédio (após a desativação na década de 40) e levar tudo o que pudesse ser vendido”, explica.

Prefeitura de Santos

Procurada pela Reportagem, a Prefeitura de Santos informa que a Secretaria de Serviços Públicos de Santos (Seserp), realiza manutenção constante no local. Já o comando da Guarda Municipal de Santos destacou que promove ações conjuntas com a Polícia Militar com frequência naquela área.

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