Ainda estou aqui reativou nossa memória, a verdade e a justiça / Sony Pictures Classics/Reprodução
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O legado do filme “Ainda Estou Aqui” é, sem sombra de dúvidas, muito maior do que vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro e ainda ser indicado para outras duas categorias e outros prêmios, confirmando que nosso cinema sempre foi e sempre será um dos maiores do Mundo.
Reativou nossa memória, a verdade e a justiça. Prestou respeito a familiares e vítimas de uma época sombria da história do Brasil. Reacendeu a chama da democracia. Trouxe nova luz sobre as trevas da Ditadura Civil-Militar Brasileira, que durou 21 anos. E no momento certo: quando a anistia volta à pauta para tentar livrar de punição novos criminosos, apoiados por viúvas de um regime de exceção que perdurou duas décadas.
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Além do santista Rubens Paiva, retratado no filme, estima-se que outras 500 pessoas tenham sido vítimas de violência somente em Santos por parte de agentes da ditadura militar. Só no primeiro dia após o golpe militar de 1964, cerca de 200 pessoas foram detidas na cidade. Milhares de outras foram torturadas, desapareceram e morreram Brasil afora. E quem tem saudades e continua apoiando golpe é, sim, cúmplice.
O filme de Walter Salles conta como Eunice Paiva (viúva de Rubens Paiva, interpretada por Fernanda Torres) liderou a família em meio ao luto e se transformou em uma advogada respeitada na luta por Direitos Humanos no Brasil. Paiva foi morto sob tortura em janeiro de 1971 e seu corpo jamais foi encontrado.
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Numa última versão, um ex-agente da ditadura arrependido e com consciência pesada revelou que Paiva teria seu corpo envolto a pneus e jogado no mar. Deu até o nome dos mandantes que nunca foram punidos.
Cinquenta e quatro anos depois, a primogênita Vera Paiva, 72, afirma que a família continua a luta travada pela mãe pelos mortos e desaparecidos. Professora titular de psicologia na USP, trabalha desde 2014 na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, da qual Eunice fez parte e que foi extinta por Jair Bolsonaro (PL).
Neste Carnaval, em todo o Brasil, o grito foi um só: “sem anistia!”. O protesto fez referência à indignação de possível perdão aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro e outras 33 pessoas foram denunciadas por tentativa de golpe de Estado.
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Oxalá permita que o filme, além do reconhecimento mundial, conscientize que é preciso punir quem ousou tentar transformar novamente o Brasil num país desumano e sem memória.
Um passo já foi dado: o vereador paulistano Nabil Bonduki (PT) é autor do projeto de lei Ainda Estou Aqui, protocolado na Câmara de São Paulo, que prevê a troca dos nomes de ruas da cidade que tenham relação com torturadores e pessoas associadas a violações dos direitos humanos durante a ditadura militar.
Em Santos, o projeto semelhante de Débora Camilo (Psol) está tramitando desde 2021. Será que agora vai?
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